Coluna Estilo de Vida

A importância do Acompanhamento Nutricional no uso das canetas emagrecedoras: um olhar comportamental

Por Beatriz Frias

Medicamentos análogos de GLP-1, popularmente chamados de ‘canetas emagrecedoras’, como o Ozempic e Mounjaro, têm se mostrado muito eficazes no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. Seu efeito sobre a saciedade e o apetite tem despertado interesse não apenas na área médica, mas também nos debates sobre emagrecimento. Mas o que acontece quando o seu uso é interrompido? 

Estudos mostram que o reganho de peso é quase certeiro e, na maioria das vezes, com um percentual ainda maior de gordura corporal, do que inicialmente. Dessa forma, iniciar o tratamento, transferindo para eles a responsabilidade pela sua saúde, pode ser um preço muito alto a pagar, mais tarde. 

O ideal é entender que as canetas emagrecedoras atuam como facilitadoras da mudança de comportamento – até mesmo porque redução da fome não é sinônimo de promoção de saúde.

Comer menos não é, necessariamente, comer melhor

Com a diminuição significativa do apetite, muitos pacientes passam a ingerir volumes muito pequenos de comida sem planejamento nutricional. Na ausência de acompanhamento, isso abre espaço para deficiências nutricionais importantes

Essas carências podem não ser imediatamente percebidas, mas elas se manifestam de forma progressiva, com sintomas como: náuseas, refluxo, constipação crônica e alteração da Microbiota Intestinal, fadiga persistente, perda de força e massa magra, piora do humor, entre outros. O corpo emagrece, mas também enfraquece como um todo.

Ainda assim, um aspecto essencial segue pouco discutido: o impacto comportamental sobre o uso desses medicamentos e a importância do acompanhamento nutricional para olhar — e não silenciar — para a relação do paciente com a comida.

O medicamento atua no apetite, não na relação com a comida

Os análogos de GLP-1 atuam em mecanismos fisiológicos relacionados à fome e à saciedade, uma vez que atuam na redução do apetite, retardando o esvaziamento gástrico e, como consequência disso, no aumento da saciedade e melhora do controle glicêmico. No entanto, eles não ensinam o paciente a comer, a fazer escolhas, a reconhecer sinais corporais ou a lidar com emoções que antes eram mediadas pela comida.

Quando a fome diminui de forma significativa, muitas pessoas relatam uma sensação de estranhamento e até mesmo apatia. Sem orientação, esse cenário pode levar a uma desconexão – ainda maior – com o corpo.

O risco de repetir ciclos antigos com uma nova ferramenta

Dessa forma, embora o medicamento seja moderno, os comportamentos alimentares disfuncionais permanecem os mesmos. A abordagem nutricional comportamental entra nesse cenário como peça fundamental para auxiliar na quebra de ciclos de “tudo ou nada” e na construção de uma relação mais flexível e saudável com a comida.

Sem esse cuidado, existe o risco de reforçar padrões alimentares antigos, além de ciclos de restrição-compulsão em torno da alimentação, bem como agravamento de questões clínicas e mentais.

Comer pouco exige ainda mais escolhas conscientes

Outro ponto a ser destacado é que, ao comer menos, cada escolha alimentar passa a ter maior impacto. Não se trata apenas de nutrientes, mas de mudança de padrão e experiência alimentar: textura, sabor, prazer, contexto. Neste sentido, como nutricionista, consigo auxiliar o paciente a estruturar refeições mais possíveis e realistas, de acordo com as rotinas e individualidades de cada um.

Até mesmo porque as canetas podem ser uma ótima estratégia para o público certo, na dose certa, pelo tempo certo. Mas como todo medicamento, existem riscos e efeitos colaterais envolvidos. 

E depois do medicamento?

Uma das maiores fragilidades no uso das canetas emagrecedoras está no que acontece após a interrupção do tratamento. Quando não há um trabalho consistente em relação ao comportamento alimentar, o paciente pode se sentir perdido ao perceber o retorno da fome.

Além disso, é importante frisar que, assim como obesidade e diabetes são doenças crônicas, isto é, de longo prazo, o uso desses medicamentos também necessita de um tratamento de longo prazo. Portanto, não são indicados para uso em um curto período de tempo.

Com isso, o acompanhamento nutricional contínuo e conjunto permite que o paciente desenvolva recursos internos — e não apenas dependa do efeito farmacológico. Isso inclui aprender a lidar com a fome e com as suas escolhas do dia a dia, de forma mais consciente.

Medicamento e nutrição comportamental caminham juntos

O uso de análogos de GLP-1 não elimina a importância da nutrição. Pelo contrário: torna o acompanhamento nutricional ainda mais necessário, especialmente quando se trata de uma abordagem comportamental.

Quando o foco está apenas no peso e na aparência, perde-se a oportunidade de promover mudanças profundas e duradouras. Em contrapartida, quando olhamos para o ser humano como um todo, na autonomia e no vínculo com o corpo, o medicamento passa a ser um facilitador do processo de mudança de estilo de vida, podendo te auxiliar a fazer boas escolhas, não fazendo a escolha por você. 

Cuidar da alimentação vai muito além da balança. É aprender a se relacionar melhor com a comida — com ou sem medicamento. Vamos juntos?

Sobre Beatriz Frias

Beatriz | Nutrição & Estilo de Vida  

Nutricionista (CRN-3: 82088) e terapeuta nutricional, capacitada pelo Instituto de Nutrição Comportamental.

Com metodologia de trabalho diferenciada, atua como facilitadora em processos de mudança de Estilo de Vida, através de Acompanhamento Nutricional mais próximo e individualizado, com foco em resultados reais e sustentáveis. 

Serviços Oferecidos:

  • Acompanhamento Nutricional Individualizado
  • Acompanhamento Nutricional para Casais
  • Educação & Comportamento Alimentar para Adolescentes
  • Programa em Grupo – Escolha Alimentar Consciente *PEAC*
  • Palestras Corporativas

Locais de atendimento: Online & Presencial: em São Paulo e Piracicaba

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Mais informações no site: www.beatrizfrias.com.br

Dúvidas e agendamentos pelo link: wa.me

*Texto originalmente publicado, na Folha de Piracicaba.

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