Por Beatriz Frias
Um olhar sobre compulsão alimentar, comportamento e a busca por escolhas mais sustentáveis
Em um cenário em que tanto se fala sobre alimentação saudável, desempenho físico e composição corporal, cresce também a preocupação com episódios de perda de controle alimentar.
Mas, diante disso, surge uma dúvida importante: será que todo descontrole é sinônimo de compulsão alimentar?
Nem necessariamente.
Nem todo episódio de descontrole alimentar é compulsão — mas todo comportamento merece atenção.
Afinal, o que é compulsão alimentar?
De acordo com os critérios diagnósticos utilizados pelo DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª Edição) e adotados por serviços especializados como o AMBULIM (Programa de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do HC-FMUSP): o Transtorno de Compulsão Alimentar é caracterizado por episódios recorrentes de ingestão de grandes quantidades de alimentos em um curto período de tempo, acompanhados de sensação de perda de controle e sofrimento associado, sem a presença de métodos compensatórios inadequados.
Durante esses episódios, alguns comportamentos costumam estar presentes:
• comer mais rápido do que o habitual
• comer até sentir desconforto físico
• ingerir grandes quantidades de alimentos, mesmo sem fome física
• comer sozinho por vergonha
• sentir culpa, tristeza ou desconforto após o episódio
Esse quadro vai além de um episódio pontual. Trata-se de um padrão recorrente que pode impactar a saúde física, emocional e a relação com a comida.
Nem tudo é compulsão — mas merece atenção
É importante destacar que nem todo episódio de comer em excesso caracteriza compulsão alimentar.
Situações sociais, comemorações, períodos de maior estresse ou alterações na rotina podem levar a um aumento pontual da ingestão alimentar — e isso faz parte da vida.
No entanto, quando esses episódios passam a ser mais frequentes, acompanhados de sofrimento, culpa ou sensação de perda de controle, é um sinal de que algo merece ser observado com mais atenção.
Ou seja: mesmo que não exista um diagnóstico clínico, o comportamento alimentar pode — e deve — ser acolhido e compreendido.
Muitas vezes, o problema não está apenas no alimento, mas na forma como nos relacionamos com ele.
Restrição e descontrole: qual a relação?
Dentro da abordagem do comportamento alimentar, existe uma reflexão importante: padrões rígidos de alimentação podem contribuir para um ciclo de restrição e descontrole.
Quando a alimentação é marcada por excesso de regras e cortes alimentares repentinos e extremos, o corpo e a mente tendem a responder.
Essa resposta pode aparecer na forma de:
• aumento da vontade por determinados alimentos
• pensamentos frequentes sobre comida (food noise)
• episódios de perda de controle
• sensação de “tudo ou nada”
Esse ciclo costuma ser mais comum do que se imagina.
E onde entra o exercício físico?
Quando se trata de praticantes de atividade física — especialmente aqueles focados em estética, composição corporal ou performance — esse cenário pode se intensificar ainda mais.
A busca por resultados rápidos pode levar a estratégias como: restrições alimentares excessivas, exclusão rígida de grupos alimentares, dietas muito restritivas e foco exclusivo em calorias ou macronutrientes.
Embora essas práticas, muitas vezes, sejam vistas como “disciplina”, em alguns casos elas podem favorecer uma relação mais rígida com a alimentação — e, consequentemente, contribuir para episódios de descontrole.
Vale lembrar que alimentação também é combustível.
Para quem pratica exercícios físicos, a ingestão adequada de energia e nutrientes é fundamental para o desempenho, recuperação muscular, equilíbrio hormonal, saúde metabólica e, claro, uma relação saudável com a comida.
Por isso, falar sobre comportamento alimentar também é falar sobre saúde e performance de forma mais ampla.
Uma reflexão final
Em um cenário marcado por resultados rápidos, vale lembrar: uma alimentação saudável não se constrói da noite para o dia, tampouco na busca por números tão exatos e precisos.
Construir uma relação mais equilibrada com a comida exige presença, passos gradativos, consciência, escuta e constância.
Na prática clínica, esse processo ganha espaço. É no acompanhamento nutricional contínuo que conseguimos olhar para além do alimento isolado, entendendo objetivos e contextos, ajustando expectativas e construindo estratégias possíveis para o dia a dia de cada um.
A escuta no consultório faz diferença justamente porque permite compreender o indivíduo de forma mais ampla — sua rotina, suas dificuldades, sua relação com o corpo, com o exercício e com a alimentação.
Porque, mais do que resultados imediatos, o que sustenta a saúde — e também o desempenho — são escolhas que fazem sentido ao longo do tempo.
Vamos Juntos?
Sobre Beatriz Frias
Beatriz | Nutrição & Estilo de Vida
{Exercício, Educação & Comportamento Alimentar}
Nutricionista CRN3 82088 e terapeuta nutricional, capacitada pelo Instituto de Nutrição Comportamental.
Siga no Instagram: www.instagram.com/biafriasnutri
Saiba mais aqui: www.beatrizfrias.com.br
Dúvidas e agendamentos pelo link: wa.me

*Texto originalmente publicado, na Folha de Piracicaba.
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