Coluna Estilo de Vida

Quando o jejum faz sentido?

Em um cenário de promessas rápidas para emagrecer e melhorar a performance, talvez a pergunta mais importante não seja quanto tempo ficar sem comer.

Em um cenário em que saúde, emagrecimento e desempenho físico ocupam cada vez mais espaço, não faltam estratégias alimentares prometendo acelerar resultados. 

Entre elas, o jejum intermitente talvez seja uma das mais conhecidas. Para alguns, representa uma forma prática de organizar a alimentação. Para outros, tornou-se quase uma regra para quem deseja emagrecer ou melhorar a saúde metabólica.

Mas, diante de tantas informações, talvez a pergunta mais importante não seja se o jejum funciona. Talvez seja: em quais situações ele realmente faz sentido?

Na Nutrição, dificilmente existe uma estratégia boa ou ruim por si só. Existe aquela que faz sentido (ou não) para cada contexto.


Afinal, por que o jejum funciona?

A proposta do jejum intermitente basicamente é prolongar o intervalo entre as refeições, favorecendo adaptações metabólicas que possam estimular o organismo a utilizar, em maior proporção, as reservas corporais de gordura como fonte de energia.

Com isso, em algumas pessoas, essa estratégia pode acabar facilitando a redução da ingestão calórica diária e, consequentemente, contribuir para o emagrecimento.

No entanto, quando os estudos comparam diferentes estratégias alimentares com ingestão energética semelhante, os resultados costumam ser bastante parecidos.

Além disso, vale lembrar que nosso organismo foi moldado ao longo da evolução para sobreviver a períodos de escassez. Então, diante de restrições prolongadas, diferentes adaptações fisiológicas podem ocorrer com o objetivo de preservar energia, reduzindo o gasto energético do organismo e tornando a perda de gordura ainda mais difícil.

Portanto, isso reforça um conceito básico: para a maioria das pessoas, a perda de peso continua sendo consequência do déficit energético, e não exclusivamente da estratégia per se.


Talvez a pergunta nunca tenha sido apenas se “funciona?”

Na prática clínica, uma estratégia alimentar dificilmente pode ser avaliada apenas pelos resultados que produz. Ela sempre precisa ser analisada dentro de um contexto.

Funciona para quem? Com qual objetivo? Em qual momento da vida? Por quanto tempo? E a que custo?

Uma estratégia que favorece a adesão para uma pessoa pode representar um extremo sofrimento para outra. Pode simplificar a rotina de alguns indivíduos e, em outros, intensificar preocupações excessivas com a alimentação, aumentar a culpa ao comer ou favorecer uma relação mais rígida com a comida.

Por isso, protocolos alimentares não deveriam ser avaliados apenas pelos seus efeitos fisiológicos, mas também pela forma como repercutem no comportamento alimentar e, especialmente, na saúde mental.

Quando falamos em comportamento alimentar, sabemos que os extremos tendem a se retroalimentar. Ou seja, quanto maior a restrição, maior pode ser o risco de oscilar com períodos de maior descontrole.

Talvez seja justamente por isso que estratégias mais radicais mereçam uma análise ainda mais cuidadosa.


E no esporte?

Quando entramos no universo do exercício físico, a discussão ganha novas perspectivas.

Treinar, recuperar e se adaptar ao treinamento exige energia. Por isso, o jejum precisa ser muito bem avaliado, principalmente quando se trata de indivíduos que buscam hipertrofia, melhora do desempenho ou até mesmo praticam modalidades de endurance, como corrida e ciclismo.

Dependendo da intensidade dos treinos, da disponibilidade energética e da organização da rotina, longos períodos sem se alimentar podem comprometer recuperação, rendimento e adaptações ao treinamento.

Isso não significa que o jejum não possa ser utilizado em situações específicas. Significa que, no esporte, analisar o contexto costuma ser ainda mais necessário. 


E, na prática, o que costuma fazer sentido?

Embora existam situações específicas em que o jejum possa ser uma ferramenta e estratégia nutricional, para a maioria das pessoas faz mais sentido construir uma rotina alimentar compatível com a própria vida.

Isso envolve considerar horários de trabalho, prática de exercícios, rotina do sono, sinais de fome e saciedade, objetivos e preferências individuais.

Além disso, permanecer muitas horas sem se alimentar nem sempre favorece boas escolhas ao longo do dia – muito pelo contrário. Para muitas pessoas, isso pode dificultar os sinais de fome, de percepção da saciedade e tornar ainda mais desafiador manter uma alimentação equilibrada.

Na maioria das vezes, estratégias mais simples costumam ser muito mais eficientes, como: organizar os horários das refeições de acordo com a sua rotina, evitar longos períodos sem comer ao longo do dia, respeitar os sinais de fome e saciedade e permitir um intervalo naturalmente maior durante a noite — por exemplo, antecipando o jantar.

Antes de iniciar qualquer protocolo, talvez valha a pena se perguntar:

  • Essa estratégia é compatível com a minha rotina?
  • Com meus objetivos?
  • Com minha saúde física e mental?
  • Eu conseguiria sustentá-la quando o entusiasmo inicial passar?

Uma reflexão final

Vivemos em uma época em que os protocolos se tornam tendências com muita rapidez. Mas, saúde não costuma ser construída por tendências. Ela é construída pela repetição de escolhas possíveis.

Na prática clínica, percebo que os melhores resultados raramente vêm da noite para o dia – até mesmo porque estes geralmente não costumam durar. Eles surgem quando a alimentação deixa de ser um conjunto de regras e passa a ocupar um lugar mais leve, flexível e coerente com a vida de cada um. E vai evoluindo gradativamente.

Talvez por isso a pergunta mais importante não seja mais se o jejum funciona. Talvez seja: a forma como você está se alimentando hoje aproxima você da vida, da saúde e dos resultados que deseja construir a longo prazo?


Sobre Beatriz Frias

Beatriz | Nutrição & Estilo de Vida  

Nutricionista CRN3 82088

Saúde, alimentação, comportamento e performance para quem busca resultados sem abrir mão da vida real.

Instagram: www.instagram.com/biafriasnutri

www.beatrizfrias.com.br

Agendamentos: wa.me

*Texto originalmente publicado, na  Folha de Piracicaba.


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